Povo Wai Wai colhe 175 toneladas de castanha em Roraima após safra zerada pela seca em 2025

Produção voltou à média anual e acordo comercial beneficiou ao menos 220 famílias indígenas; mudanças climáticas, porém, aumentam incertezas sobre a safra de 2027

Depois de enfrentar uma situação inédita de escassez em 2025, o povo Wai Wai voltou a registrar uma safra abundante de castanha-do-brasil em 2026. Aproximadamente 3,3 mil hectolitros, equivalentes a 175 toneladas, foram coletados neste ano, principalmente no território indígena localizado no sul de Roraima.

O resultado representa uma recuperação significativa em relação ao ano passado. Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), em 2025 os Wai Wai tiveram, pela primeira vez, uma colheita zerada, em consequência da emergência climática e da seca recorde que atingiu a Amazônia. Neste ano, os castanhais voltaram a produzir dentro da média anual.

Além da recuperação da produção, três associações indígenas conseguiram negociar a comercialização de parte da safra com uma empresa especializada no mercado da castanha-do-brasil. Foram vendidos 635 hectolitros, beneficiando ao menos 220 famílias indígenas.

Castanha é alimento tradicional e fonte de renda

A castanha possui uma dupla importância para os Wai Wai. Além de fazer parte da alimentação tradicional, a comercialização do excedente gera renda para as famílias que vivem do extrativismo.

Nas comunidades, o fruto é utilizado na preparação de alimentos como beiju, mingau e farinha de castanha, conhecida como Mawkin. Segundo o ISA, a farinha também apresenta potencial para comercialização.

Neste ano, a Associação do Povo Indígena Wai Wai (APIW), a Associação Indígena Wai Wai da Amazônia (AIWA) e a Associação dos Povos Indígenas Wai Wai (APIWX) participaram da negociação para venda de parte da produção.

As organizações integram as Terras Indígenas Wai Wai e Trombetas do Mapuera, que alcançam áreas de Roraima, Pará e Amazonas. Parte da entrega da produção comercializada foi concluída ainda na primeira quinzena de julho.

A APIW possui 216 associados distribuídos por 15 comunidades e beneficia 80 famílias. A AIWA reúne 69 associados e beneficia diretamente cerca de 60 famílias, enquanto a APIWX conta com 80 associados e aproximadamente 46 famílias beneficiadas. Considerando o conjunto da operação, ao menos 220 famílias foram alcançadas pela comercialização.

Reginaldo Wai Wai destaca importância da comercialização

Para Reginaldo Wai Wai, vice-presidente da AIWA e morador da comunidade indígena Anauá, em São João da Baliza, a negociação tem impacto direto sobre uma população que depende amplamente do extrativismo.

Segundo a liderança, a venda da produção foi especialmente importante porque grande parte do povo Wai Wai trabalha com a coleta da castanha.

Os indígenas ainda esperam comercializar outros volumes da safra com diferentes empresas.

O acordo dos 635 hectolitros foi fechado com a Mutran Exportadora, especializada no mercado de castanha-do-brasil. As negociações começaram em novembro de 2025, com participação das associações indígenas, do ISA e do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). Somente em abril deste ano as partes chegaram a um valor considerado economicamente viável por hectolitro.

Negociação busca valorizar custos e manejo sustentável

A definição do preço precisou considerar características específicas da cadeia produtiva indígena, principalmente as dificuldades para retirar a castanha da floresta e levá-la até os mercados consumidores.

Para Marcolino da Silva, analista do ISA que atua junto aos Wai Wai, a negociação buscou conciliar viabilidade financeira, manejo sustentável e valorização da cadeia da sociobiodiversidade. Na avaliação do especialista, o contrato também contribui para fortalecer as associações indígenas diante do mercado informal.

A logística ajuda a explicar os custos.

A castanha coletada dentro da floresta percorre um caminho que pode envolver pequenas embarcações em igarapés, voadeiras e caminhões. Para chegar a algumas comunidades e recolher a produção, as viagens podem durar até cinco dias.

Depois de retirada dos territórios, a produção comercializada foi transportada até São João da Baliza, em Roraima, e de lá seguiu para o porto de Manaus.

Produção passa por beneficiamento e controle de qualidade

Outro aspecto destacado é o cuidado com a qualidade da castanha comercializada.

Segundo a reportagem do ISA, a empresa compradora classificou a produção Wai Wai como de excelente qualidade. Marcolino da Silva relaciona o resultado à organização coletiva dos produtores e à aplicação de protocolos de boas práticas de manejo.

Todo o volume coletado passa por processos de beneficiamento e controle de qualidade antes da comercialização.

O ISA também oferece apoio às associações com combustível, alimentação e manutenção de embarcações, além de acompanhamento técnico. Marcolino participa das visitas de campo, reuniões de planejamento das expedições territoriais, negociações comerciais, monitoramento do extrativismo e escoamento e auxílio para emissão de notas fiscais.

Manejo da castanha também contribui para conservação da floresta

A cadeia produtiva possui ainda uma dimensão ambiental. Como atividade extrativista associada à floresta em pé, o manejo sustentável da castanha pode combinar geração de renda com manutenção dos ecossistemas dos territórios indígenas.

O ISA destaca que o trabalho realizado pelos Wai Wai também está associado à proteção da água, biodiversidade e clima, benefícios enquadrados no conceito de serviços ambientais.

Nesse sentido, a comercialização não representa apenas a venda de um produto florestal. A tentativa de incorporar à negociação os custos da logística, do manejo e da organização comunitária procura valorizar uma cadeia produtiva cuja continuidade depende da conservação dos castanhais e da própria floresta.

Mudanças climáticas colocam safra de 2027 sob incerteza

Apesar do resultado positivo de 2026, a experiência do ano anterior permanece como um alerta.

Segundo Marcolino da Silva, os 3,3 mil hectolitros colhidos neste ano representam uma superação direta da situação de 2025, quando a emergência climática provocou a primeira colheita zerada já registrada pelos Wai Wai e afetou as atividades econômicas das comunidades.

Os Wai Wai vivem nas Terras Indígenas Wai Wai e Trombetas Mapuera, distribuídas pelo sul de Roraima, Amazonas e norte do Pará, além da Guiana. Tradicionalmente, os extrativistas aguardam anualmente a produção dos castanhais, mas as mudanças no clima estão tornando essa previsão mais difícil.

As próximas florações são esperadas para outubro de 2026. Entretanto, diante das mudanças climáticas e da possibilidade de impactos relacionados ao El Niño, ainda não é possível saber como os castanhais responderão na temporada seguinte.

Assim, a recuperação registrada neste ano não elimina a vulnerabilidade da atividade. O contraste entre uma safra zerada em 2025 e aproximadamente 175 toneladas em 2026 mostra como alterações nas condições climáticas podem repercutir diretamente na alimentação e na renda das comunidades que dependem dos produtos da floresta.

Jovem Wai Wai registra cadeia produtiva dentro do território

A própria documentação da safra também tem participação indígena. As imagens publicadas pelo ISA foram produzidas por Languy Noro Wai Wai, jovem comunicador da aldeia Xaary, na Terra Indígena Wai Wai, em Roraima.

Desde 2022, ele registra o cotidiano de seu povo, incluindo práticas tradicionais e atividades de monitoramento territorial. Na safra deste ano, as fotografias mostram etapas como secagem, seleção, ensacamento e transporte das castanhas, além da participação comunitária no trabalho.

A safra de 2026 evidencia, portanto, uma cadeia que envolve conhecimento tradicional, organização comunitária, conservação ambiental, logística complexa e negociação comercial. Depois de um ano sem produção, o retorno dos castanhais à média permitiu recuperar uma importante fonte de alimento e renda — mas também reforçou a preocupação sobre quanto as mudanças climáticas poderão tornar safras futuras cada vez menos previsíveis.

Reportagem original de Fabrício Araújo e Ana Amélia Hamdan, jornalistas do Instituto Socioambiental, publicada em 10 de agosto.

By emprezaz

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