Florestas tropicais podem guardar US$ 1,2 trilhão em medicamentos ainda não descobertos, aponta estudo

A conservação das florestas tropicais pode representar uma oportunidade de até US$ 1,2 trilhão para a indústria farmacêutica, segundo uma análise da Zero Carbon Analytics. O levantamento estima ainda que medicamentos que poderão ser desenvolvidos a partir da biodiversidade desses ecossistemas têm potencial para gerar cerca de US$ 7 trilhões em benefícios sociais relacionados à saúde.

A dimensão econômica está relacionada à enorme diversidade de plantas e às informações químicas e genéticas presentes nas florestas tropicais. Muitas dessas substâncias permanecem desconhecidas pela ciência e podem, no futuro, servir de base para novos medicamentos. Para os pesquisadores, destruir esses ecossistemas significa também correr o risco de eliminar compostos potencialmente importantes antes mesmo que sejam identificados.

A Bacia Amazônica ocupa posição de destaque no levantamento: a região concentra aproximadamente US$ 214,7 bilhões em valor potencial associado à descoberta de novos medicamentos.

Jaborandi mostra como biodiversidade pode se transformar em medicamento

Um exemplo brasileiro apresentado pelo estudo é o jaborandi, planta nativa das florestas tropicais do país da qual é obtida a pilocarpina.

A substância é utilizada no tratamento do glaucoma e também da boca seca após radioterapia, demonstrando como componentes encontrados na biodiversidade podem resultar em aplicações médicas concretas.

A indústria farmacêutica utiliza há décadas plantas, fungos e microrganismos como fontes de produtos naturais e informações genéticas para pesquisas. O avanço tecnológico também tornou possível acessar as chamadas informações de sequências digitais (DSI) por meio de bancos de dados, sem necessariamente coletar novamente o material biológico na natureza.

Desmatamento pode ter eliminado US$ 86 bilhões em oportunidades

A perda das florestas já pode ter produzido consequências econômicas significativas.

Segundo a análise, o desmatamento tropical ocorrido desde 2001 pode ter provocado a perda de aproximadamente US$ 86 bilhões em valor comercial farmacêutico, considerando uma faixa estimada entre US$ 46 bilhões e US$ 142 bilhões.

Quando são considerados os potenciais benefícios que esses medicamentos poderiam proporcionar aos pacientes e sistemas de saúde, o prejuízo social estimado alcança US$ 860 bilhões.

No caso específico da Bacia Amazônica, aproximadamente 10% de seu potencial farmacêutico pode ter sido comprometido pelo desmatamento desde 2001. O estudo calcula que entre US$ 12 bilhões e US$ 36 bilhões estejam em risco na região.

Além da Amazônia, o Sudeste Asiático e a Bacia do Congo aparecem entre as regiões onde a destruição das florestas ameaça parcela significativa desse patrimônio biológico.

Autora cobra maior participação da indústria farmacêutica

Apesar da dependência histórica da biodiversidade, o estudo aponta que os investimentos das maiores companhias farmacêuticas em conservação permanecem limitados.

Entre as 15 maiores empresas farmacêuticas do mundo, apenas a AstraZeneca e a Novo Nordisk Foundation anunciaram aportes financeiros específicos para biodiversidade, de US$ 400 milhões e entre US$ 25 milhões e US$ 30 milhões, respectivamente. O mercado farmacêutico global foi avaliado em US$ 1,7 trilhão em 2025.

Para Jo Bentley-McKune, principal autora do estudo, existe uma desproporção entre o quanto a indústria farmacêutica se beneficia dos recursos genéticos das florestas tropicais e os investimentos realizados para protegê-los.

Segundo a pesquisadora, esses ecossistemas funcionam como verdadeiras “fábricas bioquímicas”, cuja destruição pode inviabilizar descobertas farmacêuticas antes mesmo que a ciência tenha oportunidade de identificar os compostos existentes.

Manutenção do desmatamento pode gerar novas perdas até 2050

Os pesquisadores também projetaram o que pode acontecer caso as atuais tendências de destruição das florestas tropicais sejam mantidas.

Nesse cenário, até US$ 145 bilhões em potencial valor farmacêutico podem ser perdidos até 2050. Por outro lado, interromper a perda das florestas até 2030 poderia preservar cerca de US$ 79 bilhões em valor comercial privado e aproximadamente US$ 800 bilhões em benefícios sociais relacionados à saúde até meados do século.

A meta de interromper a perda florestal até 2030 foi assumida por mais de 140 países durante a COP26, realizada em Glasgow.

Para Peter Elwin, diretor de Engajamento e Pesquisa da Finance for Biodiversity Foundation, conservar a natureza também deve ser compreendido como uma estratégia econômica. Segundo ele, proteger a biodiversidade contribui para preservar futuras inovações, tornar cadeias de suprimento mais resilientes e criar valor de longo prazo para investidores.

Biodiversidade está no Sul Global, mas riqueza se concentra no Norte

O estudo também chama atenção para uma desigualdade na distribuição dos benefícios econômicos associados à biodiversidade.

Grande parte dos recursos naturais e genéticos está localizada no Sul Global, em territórios frequentemente conservados por Povos Indígenas e comunidades locais. Em contrapartida, todas as 15 maiores companhias farmacêuticas analisadas têm sede no Norte Global.

Mais da metade do valor comercial estimado pelo levantamento, 54%, está concentrada em três grandes regiões tropicais. No Sudeste Asiático, até US$ 40 bilhões em potencial farmacêutico foram colocados em risco pelo desmatamento desde 2001; na Bacia Amazônica, a estimativa varia de US$ 12 bilhões a US$ 36 bilhões; e, na Bacia do Congo, chega a US$ 6 bilhões.

A discussão ganha relevância diante das negociações internacionais sobre repartição dos benefícios derivados dos recursos genéticos e das informações de sequências digitais, tema presente nas discussões da Convenção sobre Diversidade Biológica.

Os próprios pesquisadores ressaltam que as cifras podem representar apenas uma fração do potencial existente. A análise considera somente compostos presentes em plantas das florestas tropicais. Organismos marinhos, ambientes de água doce e outros ecossistemas terrestres ficaram fora do cálculo.

Assim, além do carbono armazenado, da regulação climática e da proteção da biodiversidade, a conservação das florestas tropicais ganha outra dimensão: preservar uma biblioteca biológica ainda largamente desconhecida, na qual podem estar moléculas capazes de originar tratamentos médicos no futuro.

By emprezaz

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