Relatório internacional aponta expansão dos pequenos reatores modulares diante do aumento da demanda elétrica de data centers e da necessidade de descarbonizar setores industriais
Os Pequenos Reatores Modulares, conhecidos pela sigla SMR, estão ganhando espaço nas estratégias globais de energia diante de uma combinação de fatores que envolve crescimento da inteligência artificial, expansão dos data centers, segurança energética e metas de descarbonização. Segundo o SMR Market Intelligence Report 2027, da Nuclear Intelligence Brief, o mercado da tecnologia pode mais que dobrar até 2032.
O relatório identifica uma mudança na dinâmica do setor nuclear, com maior participação do capital privado e o envolvimento de grandes empresas de tecnologia interessadas em garantir fornecimento contínuo e confiável de eletricidade para suas operações.
Empresas como Google, Amazon, Microsoft e Meta aparecem, segundo o documento, entre as companhias que ampliam sua participação no setor nuclear, em um momento no qual o crescimento da inteligência artificial aumenta as projeções de consumo energético dos grandes centros de processamento de dados.
Inteligência artificial amplia pressão sobre demanda energética
A expansão da IA exige infraestrutura computacional de grande porte e, consequentemente, disponibilidade significativa de energia elétrica. Essa característica vem colocando o fornecimento energético entre as questões estratégicas para empresas responsáveis por grandes redes de data centers.
Nesse cenário, o relatório aponta que a energia nuclear começa a ocupar maior espaço nas estratégias destinadas a assegurar uma fonte capaz de fornecer eletricidade de maneira contínua e, ao mesmo tempo, contribuir para objetivos de redução das emissões de carbono.
Para o presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares, Celso Cunha, a movimentação observada internacionalmente mostra que os SMRs estão avançando para uma nova etapa.
“O mercado internacional está demonstrando que os SMRs deixaram de ser apenas projetos conceituais e passaram a integrar estratégias concretas de expansão energética.”
Segundo Cunha, a combinação entre investimentos privados, avanço dos processos regulatórios e crescimento da procura por energia firme demonstra uma mudança na indústria nuclear mundial.
O que diferencia os pequenos reatores modulares
Uma das características centrais dos SMRs é justamente sua modularidade. Diferentemente das grandes usinas nucleares tradicionais, os projetos são concebidos em unidades menores e com possibilidade de fabricação seriada de componentes.
A estratégia pode proporcionar maior padronização e previsibilidade durante a implantação. Conforme o relatório, enquanto grandes usinas nucleares podem exigir mais de uma década entre planejamento e entrada em operação, os projetos de SMRs trabalham com estimativas de três a cinco anos para construção.
Outro aspecto destacado é a elevada densidade energética. Um complexo formado por pequenos reatores pode produzir grandes quantidades de energia utilizando uma extensão territorial relativamente reduzida, característica que pode ser relevante em regiões com limitações de espaço ou elevada concentração de atividades industriais.
Aplicações podem ir além da produção de eletricidade
A expansão prevista para os SMRs não está relacionada apenas ao abastecimento dos sistemas elétricos e dos data centers.
O relatório aponta potencial de utilização da tecnologia para fornecer calor de processo a atividades industriais de difícil descarbonização, entre elas siderurgia, mineração e indústrias químicas e de fertilizantes.
Esses segmentos enfrentam desafios particulares na substituição de combustíveis fósseis porque parte significativa de seus processos exige disponibilidade constante de energia e temperaturas elevadas.
Nesse contexto, os pequenos reatores são apresentados pelo estudo como uma alternativa que poderia combinar geração elétrica e fornecimento energético para processos industriais.
Brasil pode encontrar oportunidades no novo mercado, avalia ABDAN
Para Celso Cunha, o crescimento internacional dos SMRs também abre uma discussão sobre a participação brasileira nessa cadeia tecnológica.
O presidente da ABDAN destaca como vantagens brasileiras a existência de reservas de urânio, capacidade industrial, experiência na operação nuclear e mão de obra especializada, além da participação já elevada de fontes de baixo carbono na matriz elétrica.
“O Brasil reúne condições únicas para participar dessa nova fase da energia nuclear. Temos reservas expressivas de urânio, capacidade industrial instalada, experiência operacional e um dos sistemas elétricos mais limpos do mundo.”
Na avaliação de Cunha, os pequenos reatores poderiam encontrar aplicações especialmente no atendimento de demandas industriais e de novos grandes consumidores de energia.
Combustível nuclear está entre os principais desafios
Apesar das perspectivas de crescimento apresentadas pelo relatório, ainda existem obstáculos relevantes para que os SMRs alcancem implantação comercial em maior escala.
Um deles é o custo de capital dos primeiros projetos. Como ocorre com tecnologias ainda em processo de consolidação comercial, as primeiras unidades podem enfrentar custos elevados até que ganhos relacionados à padronização e à produção em série sejam efetivamente alcançados.
O documento também aponta a necessidade de modelos regulatórios capazes de reduzir riscos para investidores e dar maior previsibilidade aos projetos.
Outro gargalo é a disponibilidade do HALEU, sigla em inglês para urânio de baixo enriquecimento e alto teor, combustível necessário para alguns projetos de reatores nucleares avançados.
Atualmente, segundo o relatório, a capacidade de produção desse combustível permanece limitada, principalmente nos países ocidentais, situação que poderá afetar cronogramas de determinados projetos nos próximos anos.
Canadá, Estados Unidos e Reino Unido avançam com projetos
O relatório também aponta Canadá, Estados Unidos e Reino Unido entre os países onde projetos comerciais avançam em etapas de construção e licenciamento.
Esses movimentos são considerados importantes para a consolidação da tecnologia porque os primeiros projetos comerciais deverão fornecer dados sobre custos, prazos de implantação, operação e desempenho dos modelos desenvolvidos por diferentes empresas.
Apesar dos desafios, o documento avalia que o mercado alcançou um nível de desenvolvimento capaz de sustentar uma expansão dos pequenos reatores durante a próxima década.
Para Celso Cunha, o interesse crescente pelos SMRs está relacionado justamente ao encontro de diferentes transformações econômicas e tecnológicas.
“O que observamos é uma convergência inédita entre transição energética, segurança de suprimento, competitividade industrial e transformação digital.”
A evolução dos projetos nos próximos anos deverá indicar em que medida os pequenos reatores conseguirão cumprir as expectativas de redução de custos e prazos associadas à modularidade e qual será efetivamente seu espaço em um sistema energético mundial pressionado simultaneamente pela expansão da demanda elétrica e pela necessidade de reduzir emissões de gases de efeito estufa.

